
A crise hídrica nacional obrigou a Usina Hidrelétrica de Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Motta) a fazer uma manobra drástica: reter água para proteger o sistema elétrico do país. A Companhia Energética de São Paulo (CESP), em obediência ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), reduziu a vazão liberada de 4.600 m³/s para 3.900 m³/s.
Essa tentativa de salvar os reservatórios e evitar o acionamento de termelétricas tem um alto custo local. A medida não tem sido suficiente para compensar a seca e, ao mesmo tempo, acelera a crise ambiental no reservatório do Rio Paraná, onde estão localizadas as cidades de Bataguassu (MS) e Presidente Epitácio (SP).
A redução de 700 metros cúbicos por segundo pode parecer um número técnico, mas é um volume massivo de água retida. Para ter ideia da magnitude, o volume de água que a CESP está segurando é suficiente para encher uma piscina olímpica inteira a cada 3,6 segundos, ou o equivalente a 70 caminhões-pipa cheios, passando a cada segundo. O risco é que essa manobra, combinada com a estiagem, leve o reservatório a uma situação crítica.

O impacto ambiental atinge em cheio a economia da pesca em Bataguassu e no Distrito de Nova Porto XV. Nesse caso, a crise se manifesta em duas frentes.
Primeiro, o efeito da água estagnada no grande reservatório. A retenção do volume pela usina diminui a circulação natural da água. Isso faz com que a matéria orgânica (restos de plantas e algas) se decomponha, consumindo o Oxigênio Dissolvido. A queda brusca no nível de oxigênio pode levar à criação de "zonas mortas", com risco de mortalidade massiva de peixes.
Em segundo lugar, a proliferação de aguapés e algas se acelera. Como o fluxo é mínimo, os nutrientes (como esgoto e fertilizantes que chegam pelos afluentes) se concentram, alimentando a infestação das plantas aquáticas flutuantes. Isso impede a navegação e o acesso dos pescadores a áreas importantes, ameaçando o sustento das famílias e a pesca esportiva local a curto e longo prazo.

Em Presidente Epitácio, conhecida por suas praias fluviais e o famoso pôr do sol, o problema se concentra na queda do nível da água do reservatório. Apesar da retenção de vazão na usina, a estiagem tem sido tão severa que o nível da água segue ameaçado. Essa queda expõe vastas faixas de lama e areia onde antes era água. Píers, rampas de acesso e estruturas de lazer podem ficar fora d'água e inutilizados, afastando turistas e causando prejuízos imediatos à rede de pousadas e restaurantes.
Além disso, a baixa profundidade torna a navegação mais perigosa, com a reexposição de bancos de areia e tocos submersos. Assim como em Bataguassu, a água mais parada concentra os poluentes, acelerando a crise de aguapés que se acumulam nas margens e enseadas, inviabilizando o banho.

A redução da vazão é uma medida que visa evitar que o Brasil precise acionar mais termelétricas para gerar energia, o que encareceria drasticamente a Bandeira Tarifária.
A lição que fica, contudo, é que a crise hídrica exige mais do que "fechar a torneira" nas usinas. Para garantir um Rio Paraná saudável, capaz de produzir energia e sustentar vidas, é fundamental investir urgentemente em saneamento básico e controle de escoamento de nutrientes em toda a bacia. Só assim será possível impedir que a combinação da seca com a poluição continue sufocando a vida e a economia das cidades ribeirinhas na divisa entre Mato Grosso do Sul e São Paulo.